Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Elogio ao Amor

 

 

"Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje, incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

* Miguel Esteves Cardoso in Expresso

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Época de exames = falta de tempo e inspiração

Por isso deixei aqui ficar um texto (provavelmente já conhecido por muitos) que apreciei imenso pois retrata bem as relações amorosas na actualidade.

Boa semana!

Um  da Diva

publicado por Diva às 18:19

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8 comentários:
De Helder a 30 de Maio de 2007 às 09:30
Infelizmente concordo com o texto, já minguem arrisca no amor, parece que tudo o mundo anda com medo de se magoar que se esquecem o tão bom que e amar!
De Ana S a 30 de Maio de 2007 às 19:18
Eu bem que estava a achar este texto familiar lol.
Aproveita para estudar muito e não te distraias!
Ama quando acabar os exames lol.
Beijos
De Cöllyßry a 2 de Junho de 2007 às 17:17
Aproveita bem,bons estudos...

Meu doce beijo
De hhmarazul a 3 de Junho de 2007 às 21:36
oi, passei para matar saudades do mundo dos blogs, e desejar-te um resto de um bom de semana
De alexiaa a 4 de Junho de 2007 às 01:51
Não sei se me apetece comentar um texto do MEC:)))mas sem me perder em consideraçoes...não gosto de genaralizaçoes, eu cá não me revejo lá muito nas palavras dele:))

Bj
De Secreta a 4 de Junho de 2007 às 10:41
Os estudos em 1º lugar! :)
Beijito.
De isa&luis a 4 de Junho de 2007 às 18:47
Olá ,Querida Diva!

Boa escolha! já conhecia,mas é sempre bom reler e ter presente, que as pessoas têm falta de amor puro.

Muita força para os exames!

Beijinhos muitos

Isa
De Luis a 9 de Junho de 2007 às 10:21
Um texto profundamente reaccionário do pseudo-intelectual MEC!
O que, aliás, não admira: são artigos para venda e ele sabe muito bem dizer aquilo que a maioria de nós gosta de ouvir.
Se o nosso sentido crítico não estivesse embotado pelo amor dos tempos antigos, gente como ele não seria lida nem ouvida.

Um beijo.
Luis

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